Kazuo Okubo

Portfólio

Guardiões do Lago Paranoá

Um lago

Vivemos na cidade como se fosse possível nos abstrairmos dela. Cuidamos apenas de nossas vidas, daquilo que queremos e daquilo de que precisamos, evitando nos preocupar com o panorama maior em que nos encontramos, pois daria muito trabalho. Preferimos voltar nossa atenção para a calçada ruim, o pequeno problema do portão da garagem, as chuvas e a seca, olhando pequeno para um mundo tão grande. É como se a cidade se apagasse, em nome do projeto mais pessoal. Não é bonito, não é altruísta, mas é real.

Depois, vez por outra, os jornais alardeiam questões maiores e, uma vez por ano, em um feriado, celebramos o aniversário da cidade, relemos sua história, relembramos nossas próprias memórias, a data em que aqui chegamos, coisas assim. Lembramos o concurso, ah, sim, que Lucio e Oscar ganharam com um desenho para a nova capital, tudo distante como o tempo de Juscelino e dos tantos outros que ajudaram a construir o desafio “deste planalto central, desta solidão imensa”.

O Brasil, que tanto desconhece Brasília — sua mais perfeita tradução — sabe situar a Capital e sua história no pequeno retângulo do mapa, mesmo sem associar o quadrilátero à Missão Cruls, de 1894, e ao Sítio Castanho. São detalhes da história, menos importantes. Para a maioria dos brasileiros, Brasília ainda é apenas uma ilha política. É como se não houvesse a cidade, seus habitantes e suas histórias. Brasília é tudo aquilo que se desconhece, incluindo aí as perspectivas e problemas reais que a cidade atravessa, sobrevivente.

Resguarda-a um tombamento como patrimônio cultural, pensamos vez por outra, distraídos das formas como isso vem sendo vilipendiado, em pequenas e grandes transações imobiliárias, na forma de avanços das áreas construídas, alterações de destinação, desobediências que os contornos da lei permitem aos mais espertos. Mas é um tombamento pela arquitetura, onde não se situa exatamente nossa geografia. O cerrado não está tombado, o horizonte e o céu, o clima, o sonho e a utopia, nada disso está tombado.

E o Lago Paranoá? Em que momento ele ultrapassa sua própria superfície para ganhar um corpo de mais sólida importância em nossos pensamentos? Em que instante ele deixa de ser figura na fotografia deste lugar e passa a ter o nosso respeito? Para mim, que não pratico esportes, ele é parte do caminho, guardado sob as pontes e quase mais nada. Mas já houve um dia, lá em 1965, em que eu o atravessei a nado, com amigos aventureiros, sem qualquer preparo ou medo, da AABB até quase a Península dos Ministros. Mas esse era um outro lago e eu sou filho de um outro tempo.

Alguns anos depois, perdi um amigo, tão jovem, em um acidente de lancha, e nunca mais ousei molhar os pés naquelas águas. O lago foi se afastando na direção de uma estampa, daquelas que ilustram as antigas latas de lápis de cor. Foi virando paisagem longe dos dedos e dos pensamentos. Recentemente fiz um passeio numa dessas barcas, em uma festa de aniversário, e fiquei feliz de estar no lago, diretamente sobre sua superfície. Especialmente fiquei feliz ao passar sob suas pontes, pois, aí sim, consegui alcançar outro olhar, deslocado daquele que o trânsito rodoviário me permite.

O lago está na origem desta cidade que só é possível graças a ele, que a ele deve as condições mínimas de sobrevivência no quadrilátero. O lago é um dos dados originais do projeto fundador em que, juntamente com o quadrilátero, eram definidas as condições iniciais para a construção da cidade. O lago é, desde sempre, fundamental. Não está tombado, sobrevive como por encanto, tolerando os abusos invisíveis que sobre ele se derramam, protegido pelo decreto 12.065, de criação de sua área de proteção ambiental. Pagamos os impostos e delegamos ao Estado essa função. Que cuidem dele. A nós cabe atravessar as pontes e, se somos jovens, praticar esportes. Nossa Senhora do Lago que o proteja, pois nós seguimos com a vida.

Da janela do carro vejo, lá longe, as garças e suas penugens enganchadas na paisagem. Depois elas desaparecem, mas a vida urge, vamos seguindo, as garças voltarão. É como se o lago pertencesse a elas e aos peixinhos que as atraem por ali. Afinal, peixes há de haver. Avisto pescadores nas pontes, avisto velejadores e lanchas velozes, jet skis e regatas. Deve estar tudo bem.

Mas se vou pesquisar um pouquinho, descubro coisas incríveis, descubro uma fauna muito além das garças e capivaras que invadem os terrenos que beiram suas margens. Descubro a rã-assobiadora, a pimenta e a manteiga, além da rãzinha-da-mata. Descubro a alegria das sucuris, contentadas com a presença da asa-branca, da marreca-caneleira, do irerê, do pato-de-crista, da marreca-de-bico-roxo, da paturi-preta, do pato-corredor, dos peixinhos barrigudinhos, o guarú, o espadinha e o peixe canivete que me passam despercebidos, que nem sabia existirem. No máximo me lembro da notícia sobre um jacaré imenso que, algum tempo atrás, apalermou os pescadores. Ah, os bombeiros devem ter resolvido isso também, tudo eles resolvem, bravos bombeiros. Delego também a eles outras tarefas, ando ocupado demais em ser tudo aquilo que penso que sou.

Na virada dos anos 1980, artistas como Bené Fonteles e Frans Karjcberg inauguraram preocupações ecológicas. Bené organizou um movimento de artistas pela natureza e fiquei feliz em me juntar nessa defesa, numa época em que a ação política em prol do meio ambiente era novidade absoluta, coisa tão estranha que era necessário que artistas chamassem a atenção para as matas e as questões dos mananciais de águas limpas do Brasil. Mas depois, a vitória conquistada, a incorporação das políticas ambientais delegou ao Estado tais atribuições, criaram-se secretarias e ministérios muito competentes e nós retornamos felizes às nossas vidas, isentando-nos, como sempre, de outras preocupações além de nossos umbigos. A natureza, as águas, o lago, isso é tarefa dos outros.

Nossas famílias e nossos amigos nos salvam, cotidianamente, de grandes e pequenas desventuras, acidentes de percurso e surpresas. Precisamos lembrar que, em cada uma dessas situações, quando alguém nos salva, na verdade guarda a vida ao nosso redor, preservando nosso mundo. Pois fico aqui de longe, os pés bem secos, a pensar quem será a família do Lago Paranoá, quem serão seus amigos, quem lhe estenderá uma mão, uma voz, quem lhe dará ouvidos? Quem serão seus guardiões?

Lago bonito que ficas aí, tão quieto, cuida do ar. Cuida da terra e cuida dos bichos, pois eles são bons. Cuida daquele que caia em suas águas e cuida que o tempo não lhe deixe passar.

 

Ralph Gehre, artista plástico.

Este projeto é realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal.